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12 outubro 2012

A crônica das minhas fascinações


Me afasto, cada vez mais, das pílulas de entretenimento e suas fascinações. Dessa forma subliminar de nos tratar como neuróticos, sedentos pela droga que irá nos livrar do peso da existência. Desses fogos de artifícios que projetam um mundo pretensamente mais divertido que o real. As propagandas sugerem bebidas para ser feliz, carros para ser feliz, roupas para ser feliz e as pessoas compram bebidas, carros e roupas mas não são felizes.
O que há de errado? Será que sou eu, doutor? Durante a infância, lembro do meu lance com o futebol. Cada partida do Corinthians era uma sessão catártica que me elevava a outra dimensão. Os jogos da seleção brasileira, então, eram esperados como o desembrulhar revelador de uma manhã de Natal. Até que furaram a bola. Descobri que as apostas eram altas, os apostadores poderosos e os árbitros não conseguiam pagar as suas contas somente com o apito. E, frustrado, abandonei a fascinação pelo futebol.

01 outubro 2012

Meditando em local impróprio

Semana passada, ao acordar, resolvi meditar de frente para o sol, na varanda de casa. Há três anos pratico ioga e sei que só quem ousa manter “a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo” conhece os benefícios dessa técnica milenar. É de domínio da ciência, por exemplo, que o controle respiratório desacelera o coração e tranquiliza a mente, tornando as situações mais claras e os problemas mais fáceis de serem resolvidos. Por coincidência, um conhecido passava naquele momento em frente de casa e estranhou eu estar ali logo cedo. Quebrando minha concentração, questionou em tom jocoso se não tinha vergonha de me expor daquela forma de frente pra rua. “O pessoal vai te zuar, cara”. A partir daquele dia, passou a me tratar de forma mais estranha, quase como se eu fosse um ser de outra constelação.

06 dezembro 2010

Heróis e bandidos no espelho da sala

Segunda-feira. Correria nos bastidores do programa televisivo mais popular da região. Depois de todo o final de semana, a equipe de reportagem não havia registrado nenhum fato de grande repercussão que “esquentasse” o noticiário.
- Isso ta parecendo missa! Vou despedir todo mundo e contratar o padre como repórter -, ironizou nervosamente, o apresentador e diretor do programa. – Eu invisto tanto nessa merda e vocês não trazem nada de bom.

26 agosto 2010

O dia em que todos andaremos nus

















O sonho de hoje foi sensacional. Daqueles que a gente pode jurar que aconteceu de verdade. Uma loira monumental, corpo bem torneado e todos aqueles requisitos que padronizam as chamadas “gostosas”, andava totalmente nua pelo centro da cidade. Mães tapavam os olhos de seus filhos, senhoras de meia idade praguejavam contra a “desaforada” e, claro, marmanjos perdiam os sentidos perante tal formosidade. A mulher,por sua vez, parecia estar alheia às reações. Esvoaçava os cabelos ao vento na mais pura naturalidade.

19 julho 2010

A negra de cabelos brancos

Sentada no canto, encostada na parede, a negra de cabelos brancos. A senhora viúva de sessenta e poucos que carrega o documento na sacola que é dela! Aquela senhora negra da vila, que vive de aluguel e canta errado o inglês da novela. A mulher de cabelos brancos que paga impostos pra construir estádio de futebol. Brasileira: alegre, mas infeliz. Alegria vazia, melancolia profunda.

05 julho 2010

A Esperança para a próxima Copa

Aos poucos a diversidade de cores volta a aparecer. No alto do mastro, a bandeira brasileira tremulando solitária no paço municipal já destoa um pouco do resto da cidade. A combinação modal que efeitava vitrines, janelas, calçadas, fachadas, roupas e tudo mais que fosse possível, vai sendo trocada.(...)

09 junho 2010

A morte como erro de cálculo...

O que acontece a um corpo em aceleração quando, atingindo 120 quilômetros por hora, é contido por outro corpo de aproximadamente 40 toneladas em estado de inércia? Nélson Salvador não teve condições para calcular. Resultado: massa encefálica grudada no interior do capacete. Dezenas de pessoas velaram o caixão que lacrava os pedaços do jovem de trinta anos.

07 maio 2010

Coletivo: questão de desconfiança

Tem gente que estuda, tem gente que conversa, tem gente que ouve música, tem gente que observa, tem gente que dorme, tem gente de pé, tem gente sentada.Tem gente que faz tudo isso junto. Ao mesmo tempo, improvisadamente, um ônibus coletivo é lazer, pesquisa, descanso e exercício. Alguém se levanta para dar lugar a outro mais velho. Quem dá, se sente orgulhoso. É exemplo. Quem percebe, aprende uma lição. É escola. Quem recebe, se alegra. É gratidão. Quem discorda, desconfia. Vivência?

29 março 2010

Entenda a Seção Cronicaos

Histórias envolvendo temáticas sobre esta ordem caótica do dia-a-dia, que nós mesmos construímos. Sobre esse conjunto de normas, comportamentos e reações que (algumas pessoas), temporariamente, emprestam a alcunha de Realidade.

Formato: texto e foto. Periodicidade: uma vez por semana. Curiosidade: Algumas destas crônicas narram fatos reais, substituindo eventuais nomes.



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